"Que as sementes do conhecimento possam ampliar a nossa consciência e conduzir-nos a um mundo mais belo e harmonioso."

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Eu sou responsável

Desde cedo, na infância, que a noção de responsabilidade nos é incutida. Somos sensibilizados para o facto de que ao ganharmos consciência acerca uma questão que nos diz respeito, tornamos-nos responsáveis pelo que envolve essa questão, dentro das nossas limitações e capacidades. Por exemplo, quando em criança queremos ter um animal, naturalmente são-nos imputadas determinadas responsabilidades de acordo com a nossa idade e capacidade de compreensão, por exemplo, podemos ficar encarregues de assegurar os cuidados básicos de que esse animal necessita, podemos ficar responsáveis perante os nossos progenitores pelo que o animal possa fazer, sendo que existem vários factores inerentes à imputação da responsabilidade. À medida que crescemos vamos compreendendo que as nossas acções têm um reflexo à nossa volta e não apenas dentro de nós, pelo que, nos tornamos responsáveis por esse reflexo.
Naturalmente, alguém ser responsável sobre algo implica que essa pessoa tem capacidade para exercer essa responsabilidade e que tem plena consciência dessa responsabilidade. Por outro lado, existem diferentes níveis de imputação da responsabilidade de acordo com a capacidade e profundidade de actuação de cada indivíduo.
Assim, viver em sociedade implica assumir determinadas responsabilidades sobre as nossas acções que nos vão sendo atribuídas à medida que vamos crescendo, que nos vamos tornando mais conscientes, de acordo com o nosso papel na sociedade. Na sociedade existem valores culturais que condicionam a forma como a sociedade vê todos esses papéis e responsabilidades. No entanto, temos vindo a aperceber-nos que as nossas acções têm uma implicação muito para além do nosso universo cultural e social do país onde vivemos, ou mesmo do continente onde nos encontramos. Cada vez mais esse papel e responsabilidade se estendem para além da cidade ou país do qual fazemos parte. As nossas acções têm reflexos em todo o globo e cada vez mais temos de tomar consciência da nossa responsabilidade nessa matéria. Fruto de uma sociedade que viveu com graves limitações na liberdade de pensar e agir, hoje somos confrontados com um papel difícil de compreender e aceitar. Tomar real consciência da profundidade das nossas responsabilidades é o passo mais complicado sendo, naturalmente, mais fácil redireccionar essa responsabilidade para os outros, seja o vizinho, o patrão, a Junta de Freguesia, a Câmara Municipal, os Serviços Sociais, o Governo, ou qualquer outra figura ou entidade. Esse era o modelo anterior, o Estado pensava por nós e agia por nós, sendo éramos, praticamente, remetidos para o papel de marionetas. Com a liberdade vem também a responsabilidade perante nós mesmos e perante o mundo à nossa volta.
O mundo está cada vez mais pequeno, na medida em que as distâncias se encurtam e que os efeitos da globalização se fazem sentir em todo o planeta. Os produtos que consumimos podem ter sido projectados num país da América do norte, ter sido confeccionados na Ásia com tecnologia da Europa central e transportados até nós por navios do norte de África. Pelo meio, milhões de pessoas estão directa ou indirectamente envolvidas neste processo, por isso, o simples acto de efectuar uma compra num supermercado pode ter reflexos no outro lado do mundo. Além das pessoas, também outros seres podem ser afectados pelo nosso comportamento ou mesmo a natureza no seu todo. Assim, na medida das nossas capacidades e consciência, somos cada vez mais responsáveis pelo nosso comportamento e acções.
Há diversos factores a ter em conta no assumir desta responsabilidade. Em primeiro lugar, é natural que exista uma grande parte de responsabilidade que diga respeito ao Estado ou a órgãos e entidades criados para o efeito. No entanto, o Estado representa cada indivíduo, logo deve representar e reflectir a sociedade, não desresponsabilizá-la. De que serve afirmarmos que o Estado não ajuda as empresas nacionais e que, com isso, contribui para a decadência de determinados sectores se, quando adquirimos um determinado produto pensamos mais no seu preço do que na sua origem. Isso é absolutamente incoerente, opondo-se aos princípios que apregoamos. Qual é o sentido de afirmarmos que gostamos muito de animais se depois adquirimos produtos que, antes de chegarem ao mercado, passaram por uma série de testes desnecessários, que causaram o sofrimento e a morte de milhares de animais? As questões que se colocam são: “Quais são as implicações das minhas acções?”, “Que reflexos terá a aquisição de determinado produto?”, “Porque é que as minhas acções contrariam as minhas palavras?”, “O que é que eu posso fazer para melhorar o mundo onde me encontro?”. Em vez de simplesmente apontarmos o dedo aos outros deveríamos olhar para nós mesmos e perceber qual é que pode ser a nossa contribuição. Por isso eu sou responsável pelo meu comportamento, eu sou responsável pelas minhas decisões, eu sou responsável pelas minhas acções. Por isso, a cada dia eu tento melhorar o meu comportamento a fim de que as minhas acções tenham um reflexo cada vez mais positivo no mundo. Como dizia Ghandi: “Sê a mudança que queres ver no mundo.”

1 comentário:

  1. Fizeste-me lembrar a velha frase:
    "Errar é humano. Pôr as culpas nos outros é mais humano ainda."
    A responsabilidade, especialmente a responsabilidade ética e socaial, é um valor que se perdeu na nossa sociedade. O consumo de produtos nacionais por vezes nem é uma questão de preço, é uma questão de comodidade. Para consumir alguns produtos nacionais é necessário sair das grandes superfícies e ir ao comércio tradicional.
    Mesmo assim, os produtos nacionais estão cada vez mais difíceis de encontrar (até os Galos de Barcelos são Made In China).
    Dos produtos de comércio justo é melhor nem falar...

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